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Por que devemos (ou não) consumir pescados e frutos do mar?

A escolha do alimento que consumimos em casa ou em restaurantes tem impactos em nossa saúde e na saúde do planeta. Dietas pouco saudáveis e pobres em nutrientes são a causa de diversos problemas de saúde, como doenças cardiovasculares, diabetes, etc e levam a mais de 11 milhões de mortes por ano. A produção de alimentos é responsável por mais de um terço das emissões de gases do efeito estufa na atmosfera, contribuindo diretamente para as mudanças climáticas. A pecuária bovina é a atividade que mais contribui para essas emissões por quilograma de alimento produzido. A agricultura utiliza atualmente quase metade das terras vegetadas do mundo, sendo responsável por grande parte do desmatamento e perda de biodiversidade no planeta. Cerca de 50% da produção agrícola é destinada para alimentação do gado. Além disso, cerca de 70% de toda a água doce utilizada no mundo é para produção de alimento, sendo determinante para a escassez de água em muitas partes do planeta.


A população mundial é projetada para atingir 9,8 bilhões de pessoas até 2050, 25% a mais do que a população atual. Essa tendência pode levar a demanda por alimentos a dobrar até 2050, uma vez que o consumo de alimentos – principalmente de origem animal – tende a aumentar junto com o crescimento populacional e desenvolvimento econômico. Juntando esses fatores, estima-se que a demanda por proteína animal aumentará cerca de 70% até 2050.


Para conseguirmos minimizar os efeitos causados pela produção de alimentos no meio ambiente, é fundamental avaliar nosso próprio consumo, considerando as diferentes alternativas oferecidas pelo mercado. Todo alimento que consumimos tem algum impacto ambiental, seja em sua produção ou distribuição. Quando analisamos os sistemas de produção de forma separada, é inevitável nos depararmos com os problemas inerentes a cada um deles. Por isso devemos analisar as diferentes possibilidades de forma relativa, pensando que quando deixamos de consumir determinado alimento, aquele que consumimos no lugar dele pode ter mais ou menos impactos ambientais e sociais, dependendo do critério utilizado.


Outro ponto importante a ser considerado na produção de alimentos é que essa atividade econômica é fundamental para a geração de empregos e renda de milhões de famílias. A produção na forma artesanal e em pequena escala é responsável por cerca de um terço da comida produzida no mundo e pela maioria dos empregos ligados à produção de alimentos. Portanto, priorizando o consumo de alimentos oriundos de pequenos produtores artesanais, além de incentivarmos alimentos mais sustentáveis, valorizamos cadeias produtivas justas e equitativas.


E o pescado? Como na agricultura, a produção de pescado também pode ser realizada em pequena escala por pescadores e aquicultores artesanais, que de modo geral apresentam um impacto menor no meio ambiente em relação à produção em grande escala, realizada por empresas de aquicultura e pela pesca industrial. No Brasil, estima-se que cerca de 60% da produção de pescados seja proveniente da pesca artesanal, sendo responsável pela renda de ao menos 1 milhão de pessoas. Abaixo, listamos as vantagens e desvantagens do consumo de pescado em relação a outras fontes de proteínas e alguns dos principais fatores que devemos considerar na escolha desses produtos.


1. Pescados são ricos em nutrientes fundamentais para a saúde humana


Comparado com outras proteínas de origem animal, o pescado é o alimento mais rico em nutrientes (Figura 1). Ainda que varie de acordo com a espécie e com o nutriente que consideramos, de forma geral, peixes, ostras, mexilhões e crustáceos são fontes importantes de nutrientes como ferro, zinco, vitamina A, vitamina B12, cálcio e ômega-3. Esses nutrientes são vitais para o bom funcionamento do corpo humano e seu consumo apropriado ajuda a prevenir diversas doenças. Por exemplo, o ferro é particularmente importante para o desenvolvimento e crescimento saudável do cérebro em crianças; o consumo de zinco apoia o crescimento e o funcionamento normal das células imunitárias e é particularmente importante para crianças e mulheres grávidas; o cálcio sustenta a saúde óssea e a pressão arterial.





Figura 1 - Valor nutricional de alimentos aquáticos (azul) e terrestres (verde) avaliada como uma razão das concentrações de cada nutriente por 100 g para a ingestão diária recomendada. Cada caixa sombreada representa o valor médio de cada nutriente em tecido muscular em todas as espécies dentro de cada grupo taxonômico. Os grupos de alimentos foram ordenados verticalmente por sua riqueza média de nutrientes com valores mais altos atendendo a maior porcentagem da ingestão diária recomendada (Golden et al 2021).


Ao redor do mundo, cerca de 2 bilhões de pessoas não têm acesso a alimentos nutritivos e suficientes durante todo o ano. No Brasil, a desnutrição e a fome atingem uma em cada três pessoas. Para comunidades que não têm acesso a uma dieta diversificada, o pescado pode ser a principal fonte de nutrientes vitais para a saúde. Em muitas comunidades, famílias têm acesso apenas a um alimento básico (milho, arroz, farinha) e pescado. Nesses casos, o pescado tem uma importância enorme para nutrição.


Para aqueles que têm acesso a uma dieta diversificada, o pescado provavelmente não é a principal fonte de nutrientes, com exceção do ômega-3, que não é facilmente encontrado em outras fontes além dos pescados, diferentemente de vitaminas e minerais, que estão presentes em frutas, verduras e grãos. O consumo regular de ômega-3 contribui para a saúde do cérebro e dos olhos e está associado à redução do risco de doenças cardíacas.


2. A produção de pescados tende a ter baixo impacto ambiental em comparação a outras proteínas de origem animal


De um modo geral, quando comparamos as emissões de carbono, consumo de água e ocupação do solo, poluição e impactos à biodiversidade, a grande maioria dos pescados têm um impacto menor que aqueles gerados pela produção de outros alimentos de origem animal. Porém, como todos os alimentos, os impactos variam consideravelmente de acordo com a forma de produção.




Figura 2 - Emissões de gases de efeito estufa em relação à riqueza composta de nutrientes nos principais grupos de alimentos. A linha horizontal cinza indica a mediana para todas as observações em todos os grupos de alimentos (Kohen et al 2022)


Pescados capturados pela pesca artesanal tem geralmente um impacto menor do que aqueles capturados pela pesca industrial. Enquanto a última pode operar em barcos enormes e com grande aparato tecnológico, capazes de capturar de uma vez só cardumes inteiros e um volume enorme de peixes, a pesca artesanal geralmente é feita em pequenas embarcações com uma produção de pequena escala. Ainda que o número de embarcações da pesca artesanal seja bastante alto e assim, coletivamente, elas possam gerar impactos negativos sobre ecossistemas marinhos, o seu impacto individual é geralmente pequeno, especialmente se comparado às embarcações da pesca industrial de grande porte (da pesca de arrasto, por exemplo). Contudo, se por um lado não se pode garantir que todas as embarcações da pesca artesanal desenvolvem suas atividades de forma sustentável, por outro não se pode deixar de atentar que as pescarias industriais também podem ser feitas com baixo impacto ambiental e através de práticas sustentáveis. Para evitar generalizações, é importante analisar a sustentabilidade de cada pescaria, considerando fatores como: 1) se a pesca é feita de acordo com a legislação vigente, 2) se essa pescaria captura muitos indivíduos pequenos, que ainda não tiveram a capacidade de se reproduzir, 3) se existe captura de espécies ameaçadas, 4) se a atividade causa degradação ao ecossistema ou habitat, 5) as condições de trabalho dos pescadores e pescadoras, 6) a distância percorrida entre o local onde o pescado foi capturado até chegar no consumidor final. Como mencionado anteriormente, todo sistema de produção gera impactos e cabe ao consumidor se informar e escolher produtos de pescarias que têm o menor impacto ao meio ambiente. Produtos certificados pelo Marine Stewardship Council, por exemplo, são uma opção segura para consumo de pescado sustentável.


Assim como ocorre com a pesca, existe uma enorme diversidade nos sistemas de produção na aquicultura. De um modo geral, os moluscos cultivados (ostras, mexilhões, vieiras) tendem a ser opções com impactos mais baixos, e o salmão cultivado tem, em média, um impacto menor do que frango ou porco. Por outro lado, as fazendas de tilápia e camarões geralmente exigem uma grande quantidade de energia para recircular a água e às vezes podem ter uma pegada de carbono semelhante a da carne bovina. Espécies nativas (como o tambaqui) são alternativas importantes para evitar impactos relacionados à introdução de espécies exóticas em ambientes naturais. Mas há muita variação de fazenda para fazenda. Assim, alguns fatores que devem ser considerados no caso da aquicultura são: 1) a quantidade de água utilizada, 2) conflitos com outras atividades, 3) tratamento e destinação de rejeitos, 4) se a área utilizada está associada ao desmatamento de florestas e manguezais, 5) uso de excessivo de antibióticos e outros aditivos químicos, 6) condições de trabalho, 7) a distância percorrida entre o local de produção até o consumidor final. Como consumidores, podemos procurar produtos certificados pelo Aquaculture Stewardship Council, por exemplo, que verificam diversos fatores ligados à sustentabilidade do sistema de produção.


3. A produção de pescado é fundamental para o sustento de milhões de pessoas


No Brasil, a atividade pesqueira e aquícola emprega cerca de 4 milhões de pessoas ao longo de toda sua cadeia. Para muitas comunidades costeiras, a atividade pesqueira é a principal fonte de renda e alimento. Além disso, a pesca faz parte da cultura e tradição de inúmeras comunidades tradicionais. Portanto, quando consumimos pescados da pesca artesanal também estamos apoiando o sustento e os modos de vida dessas comunidades.

As decisões de consumo podem desencadear importantes transformações nas formas de produção. O alimento que escolhemos comprar em feiras, supermercados ou restaurantes pode ter um impacto enorme na promoção de práticas produtivas mais sustentáveis e assim, contribuir para os grandes desafios socioambientais que enfrentamos. Se continuarmos consumindo alimentos da forma como fazemos hoje, em algumas décadas podemos ter menos capacidade de produzir alimentos de qualidade e mais pessoas sofrendo de doenças relacionadas à alimentação inadequada. Quando conhecemos de onde vem nossa comida, a forma com que é produzida e seu valor nutricional, podemos incentivar sistemas de produção sustentáveis e que produzem alimentos nutritivos e saudáveis, reduzindo assim o impacto ambiental de nosso consumo e também promovendo melhores condições de saúde para toda a população. Portanto, a redução do consumo de proteínas animais de grande impacto ambiental (como a carne de vaca) e sua substituição (total ou parcial) pelo pescado sustentável e produzido localmente pode contribuir na diminuição dos impactos sociais e ambientais causados pelos sistemas de produção de alimentos.



Referências


Koehn, J. Z., Allison, E. H., Golden, C. D., & Hilborn, R. (2022). The role of seafood in sustainable diets. Environmental Research Letters, 17(3), 035003.


Afshin, A., Sur, P. J., Fay, K. A., Cornaby, L., Ferrara, G., Salama, J. S., ... & Murray, C. J. (2019). Health effects of dietary risks in 195 countries, 1990–2017: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2017. The Lancet, 393(10184), 1958-1972.


Golden, C. D., Koehn, J. Z., Shepon, A., Passarelli, S., Free, C. M., Viana, D. F., ... & Thilsted, S. H. (2021). Aquatic foods to nourish nations. Nature, 598(7880), 315-320.





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