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Nota sobre documentário Seaspiracy, do Netflix

Atualizado: 30 de mai. de 2022

Seaspiracy perturba e alarma, mas peca no uso de dados científicos, distorce iniciativas e deixa de lado questões e soluções fundamentais para a sustentabilidade dos oceanos (e do planeta)


Assistir ao filme Seaspiracy, lançado recentemente no Netflix, é perturbador. Até para aqueles com um pouco mais de conhecimento sobre o setor da pesca e seus impactos, é preciso um pouco de tempo até o choque passar para conseguir analisar o conteúdo e narrativa do filme com perspectiva e olhar crítico.


Diversos cientistas, ativistas e comunicadores já apontaram falhas do documentário[1][2][3][4][5][6][7], como o uso de dados ultrapassados[8][9] ou inflados[10][11], simplificações de temas complexos, a edição seletiva e enviesada das entrevistas[12][13][14], a desqualificação de ações que contribuem para avanços importantes no setor, a opção por não questionar a indústria do petróleo e do plástico[15], o impacto das mudanças climáticas sobre o oceano, entre outras. Muitas dessas críticas reforçam que não se trata de ignorar ou desprezar os impactos da pesca sobre os ecossistemas, mas de expor dados e análises de forma responsável e transparente, especialmente considerando que grande parte do público que assiste ao documentário do Netflix é leigo no assunto. Expor os problemas e não expor iniciativas bem sucedidas ou desmoralizá-las, como o filme faz, prejudica o sucesso e defesa das iniciativas existentes e dificulta o alcance de sustentabilidade no setor.

É fundamental que as múltiplas dimensões da pesca – como sua importância cultural e para a segurança alimentar e nutricional de povos e populações, assim como a existência de diferentes formas de pescar – sejam trazidas à tona, coisa que o filme Seaspiracy optou por não fazer. Precisamos discutir a pesca sim, mas desde uma perspectiva que faça sentido para a nossa realidade e adequada ao nosso contexto.


Para nós, brasileiros, é particularmente importante esclarecer que a narrativa do filme tem como ponto de partida uma perspectiva europeia/ americana e branca, que é uma realidade muito distinta da maior parte da população global. Na perspectiva desse público, o consumidor tem amplo poder de escolha e está ao seu alcance substituir facilmente uma fonte proteica por outra, inclusive dispondo de um grande leque de opções de alimentos oriundos de quase qualquer lugar do mundo. É uma realidade muito diferente da maioria dos brasileiros e da maior parte do mundo, onde milhões de pessoas dependem diretamente da pesca como principal fonte de nutrientes e de renda.


Além disso, é importante considerar que não é exclusiva à indústria do pescado a geração de impactos ecossistêmicos e climáticos. Na realidade, se compararmos diferentes sistemas de produção de proteína animal, a pesca ainda é o sistema de produção de menor impacto em termos de emissão de carbono, uso de água e destruição de habitats[16][17]. Tampouco é exclusivo à pesca o emprego de mão de obra em condições degradantes. Simplesmente indicar a substituição do consumo de determinado alimento por outro - sem questionar sua origem, o processo produtivo e as condições de trabalho empregadas - não resolve nem as questões ambientais nem as questões sociais associadas à produção de alimentos.


Mais do que propor a simples eliminação ou substituição de pescados nas dietas da população mundial - o que, sendo realistas, não irá ocorrer em larga escala - acreditamos em incentivos e ferramentas que viabilizam a produção sustentável e a rastreabilidade do pescado. Certificações como o Marine Stewardship Council (MSC), apesar de serem apenas parte da solução, têm obtido bons resultados na redução ou eliminação da captura de fauna acompanhante (bycatch) e na adoção de práticas que impactam menos a biodiversidade marinha e garantem a sustentabilidade de estoques pesqueiros[18]. A desqualificação de iniciativas como essa coloca em xeque os esforços de organizações da sociedade civil voltados não apenas para a sustentabilidade da pesca, mas também de iniciativas semelhantes que buscam a rastreabilidade e sustentabilidade em outras cadeias produtivas, da carne bovina ao alumínio, passando pela madeira, soja, algodão, cana de açúcar e tantas outras[19]. Longe de serem perfeitas, essas iniciativas tentam, de maneira pragmática, endereçar questões sistêmicas que são de difícil solução.


A regulação da atividade pesqueira é capaz de promover a sustentabilidade, diferente do que sugere o documentário. O documentário cita dados que prevêem o fim da biodiversidade marinha no ano de 2048 devido à sobrepesca, baseados num estudo de 2006. Além de ser uma interpretação equivocada dos resultados, os próprios autores do estudo já revisaram essa previsão e concluíram que, devido a avanços na gestão pesqueira, grande parte das populações de peixes monitoradas (para as quais existem dados e que representam metade da captura mundial) estão saudáveis ou em trajetória de recuperação[20]. Além disso, diversos estudos apontam que devido a novas tecnologias e políticas de redução de fauna acompanhante, diversas populações de baleias, golfinhos e tartarugas estão saudáveis ou se recuperando[21].


Outro ponto fundamental é a questão da escala da atividade. Enquanto o filme aponta os reais impactos de uma pesca industrial predatória, no Brasil e em outros países tropicais, a maior parte da pesca é realizada na escala artesanal. No Brasil - que, vale lembrar, caminha de volta ao Mapa da Fome da FAO[22] - a pesca artesanal representa 98% dos pescadores e cerca de 50% da captura[23]. A eliminação ou substituição do pescado, além de representar um risco à segurança alimentar dessas populações também comprometeria a fonte de renda de centenas de milhares de pescadores e pescadoras artesanais país afora.


Isso não significa que a pesca no Brasil não gera impactos. Pescarias pouco seletivas como o arrasto ou grandes redes de pesca flutuante podem capturar quantidades expressivas de fauna acompanhante e peixes pequenos que ainda não tiveram a oportunidade de se reproduzir, o que compromete a sustentabilidade de populações marinhas. Ao mesmo tempo, existem pescarias que são manejadas e altamente seletivas, capturando apenas peixes com capacidade reprodutiva e sem (ou muito pouca) fauna acompanhante. Portanto, existem sim pescarias sustentáveis, tanto de larga escala quanto as que populações tradicionais e indígenas fazem há milhares de anos. É preciso relativizar e olhar com mais cuidado antes de rotular toda a atividade pesqueira como maléfica e como a principal causa da degradação dos oceanos.


A pesca é apenas uma das atividades realizadas nos oceanos, que também é palco de exploração de combustíveis fósseis, mineração, transporte de cargas, turismo, etc, de modo que são várias as ameaças sobre a saúde desses ecossistemas. Atividades humanas em terra firme e em espaço aéreo também impactam direta e indiretamente o equilíbrio dos oceanos, seja através das mudanças climáticas, poluição, plástico, desmatamento de manguezais, entre tantos outros.


É oportuna a discussão sobre a sustentabilidade da pesca, principalmente no Brasil, onde a descontinuidade da política pesqueira e a falta de instrumentos e dados dificultam a regulação da atividade. No entanto, além de apontar as falhas, é fundamental trazer à luz as iniciativas bem sucedidas, no Brasil e no mundo, nas escalas industrial, regional e comunitária para guiar políticas públicas que sejam capazes de abarcar a complexidade do tema. Dificilmente tentar converter a população mundial ao veganismo resolverá os vários problemas associados à produção de alimentos. Por outro lado, é possível e desejável assegurar que nossos alimentos não sejam vetores de degradação ambiental e não levem ao esgotamento dos recursos naturais. A gestão efetiva da atividade pesqueira é capaz de assegurar um oceano saudável e, ao mesmo tempo, garantir uma fonte sustentável de alimento para a humanidade e o bem estar de populações tradicionais. Isso passa necessariamente pelo diálogo entre os diferentes grupos de pescadores e pescadoras, gestores e sociedade civil, coisa que o filme Seaspiracy se recusa a fazer.




Referências

[1] Artigo do jornal The Guardian relata críticas de especialistas e organizações entrevistadas no filme sobre afirmações enganosas, estatísticas equivocadas e entrevistas tiradas de contexto: https://www.theguardian.com/environment/2021/mar/31/seaspiracy-netflix-documentary-accused-of-misrepresentation-by-participants [2] Artigo contestando diversas informações apresentadas no filme e trazendo links de artigos e papers: https://sustainablefisheries-uw.org/science-of-seaspiracy/ [3] Artigo expõe e explica as controvérsias e críticas ao filme: https://mothership.sg/2021/04/seaspiracy/ [4] Artigo do cientista marinho e professor na Universidade de Hull, Magnus Johnson: https://marine-biology.net/2021/03/29/seaspiracy/ [5] Artigo da ambientalista Maggie Dewane, que trabalhou no Marine Stewardshipo Council: https://maggiedewane.com/2021/03/30/a-conservationists-reaction-to-seaspiracy/ [6] Artigo do cientista marinho e professor na Universidade de British Columbia, Daniel Pauly: https://www.vox.com/2021/4/13/22380637/seaspiracy-netflix-fact-check-fishing-ocean-plastic-veganism-vegetarianism [7] Crítica em português sobre o documentário: https://gizmodo.uol.com.br/documentario-netflix-seaspiracy/ [8] Previsão de que o oceano não terá mais peixes em 2048 é contestada pelo próprio autor do estudo, em 2009: https://aboutseafood.com/press_release/nfi-rip-erroneous-2048-statistic/ https://www.eurekalert.org/pub_releases/2009-07/cpfs-nhf072409.php [9]Estimativa do número de tartarugas capturadas e mortas por by-catch nos Estados Unidos.: entre 1990 e 2007: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0006320711002965 [10] Artigo sobre descarte de fauna acompanhante (by-catch) que apresenta dados distintos do apresentado no filme (que mais de 40% das capturas seriam descartadas por ser fauna acompanhante): https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/faf.12233 [11] Artigo sobre Grande Ilha de Lixo do Pacífico, que estimou que 46% dos resíduos flutuantes na mesma são redes de pesca: https://www.nature.com/articles/s41598-018-22939-w [12] Nota publicada pelo International Marine Mammal Project, do Earth Island Institute, sobre o filme e o selo Dolphin Safe: https://www.earthisland.org/index.php/news/entry/international-marine-mammal-project-statement-on-seaspiracy-film [13] Nota publicada pela Oceana em resposta ao documentário: https://oceana.org/statement-oceana-netflixs-seaspiracy [14] Nota publicada pela MSC em resposta ao documentário: https://www.msc.org/media-centre/news-opinion/news/2021/03/26/response-to-netflix-seaspiracy-film [15] Série de tweets da ativista climática Mitzi Jonelle Tan, das Filipinas: https://twitter.com/mitzijonelle/status/1378034252827127808 [16] Estudo avalia impacto ambiental de fontes de proteína animal sob quatro métricas: https://esajournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/fee.1822 [17] Tilman, D., & Clark, M. (2014). Global diets link environmental sustainability and human health. Nature, 515(7528), 518-522.

[18] Compilado de artigos a respeito da efetividade do Marine Stewardship Council na avaliação da sustentabilidade das pescarias: https://sites.google.com/a/uw.edu/most-cited-fisheries/controversies/mscecolabel [19] Alguns exemplos de iniciativas como a Marine Stewardship Council podem ser encontradas entre os membros da Iseal Alliance, rede de organizações que reúne, apoia e avalia sistemas de sustentabilidade: https://www.isealalliance.org/iseal-community-members. [20] Hilborn, Ray, et al. "Effective fisheries management instrumental in improving fish stock status." Proceedings of the National Academy of Sciences 117.4 (2020): 2218-2224. [21] Valdivia, Abel, Shaye Wolf, and Kieran Suckling. "Marine mammals and sea turtles listed under the US Endangered Species Act are recovering." PloS one 14.1 (2019): e0210164. [22]https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/2021/04/01/inflacao-e-pandemia-podem-empurrar-brasil-de-volta-ao-mapa-da-fome


Outras fontes de informação sobre o tema:

Emprego de mão de obra na pesca marinha no mundo: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/j.1467-2979.2011.00450.x

Série documental Rotten, também do Netflix, que trata dos problemas de diversas outras cadeias produtivas: https://www.netflix.com/title/80146284?s=a&trkid=13747225&t=wha



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